domingo, 24 de fevereiro de 2019

Palpites para o Oscar 2019

Um dos dias mais esperados pelos cinéfilos ao redor do mundo chegou: hoje tem Oscar! E como todo amante da sétima arte, também tenho os meus palpites para a premiação. Lembrando que trata-se de uma opinião baseada na temporada de premiações (SAG, DGA, PGA, Critics Choice, Globo de Ouro, Bafta, ...) e no histórico da Academia - e não nas minhas crenças pessoais. Então vamos ao que interessa:

Melhor curta em live-action: Marguerite - "Fauve" é o meu favorito, mas a abordagem doce e sensível de "Marguerite" tende a agradar mais os votantes da Academia.

Melhor curta em documentário: Black Sheep - Embora o emocionante "End Game" e o socialmente relevante "Period. End of Sentence" tenham mais apelo por estarem vinculados à Netflix, seria um absurdo a Academia não reconhecer a grandeza e o impacto desse filme.

Melhor curta animado: Bao - Ainda que "One Small Step" conte uma história linda, será muito difícil tirar o Oscar das mãos do surpreendente - e impactante - filme da Pixar.

Melhor filme estrangeiro: Roma - Inserido em uma categoria recheada de grandes obras, tais como "Guerra Fria" e "Assunto de Família", Roma é uma das maiores realizações cinematográficas dos últimos anos e este talvez seja seu prêmio mais certeiro.

Melhor animação: Homem-Aranha no Aranhaverso - É a melhor animação do ano e ganhou todos os prêmios até agora. Fácil.

Melhor documentário: RBG - A força político-social da trajetória de RBG deve suplantar a técnica de "Free Solo". Uma escolha que tende mais ao conteúdo do que a forma, apesar das duas obras serem excelentes.

Melhores efeitos visuais: Vingadores: Guerra Infinita - Um filme que trata, basicamente, do estudo de um personagem criado por computação gráfica. Os efeitos são incríveis.

Melhor mixagem de som: O Primeiro Homem - Um filme que sabe encaixar os sons harmonicamente para criar uma completa imersão.

Melhor edição de som: O Primeiro Homem - Inventivo na criação dos diversos rupidos relacionados à espaçonave, a edição de som do filme de Chazelle também é um dos pontos altos do filme.

Melhor edição: Bohemian Rhapsody - Um filme que, apesar de tudo, consegue ter um ritmo agradável à sua proposta, conseguindo encaixar os shows com o resto da história.

Melhor fotografia: Roma - Outra categoria de altíssimo nível, mas em "Roma" a fotografia em preto e branco não só provê quadros lindos, mas também auxilia na construção narrativa.

Melhor canção original: Shadow, de Nasce uma Estrela - A categoria mais fácil de todas. "Shallow" está no coração de todos até hoje.

Melhor trilha sonora original: Se a Rua Beale Falasse - Talvez este seja o prêmio da Academia que redima a esnobada que essa obra tão carinhosa recebeu. É uma trilha suave, doce e encantadora.

Melhor design de produção: A Favorita - Tudo técnico do filme de Lanthimos é perfeito, inclusive a sua escolha por ambientação e os diversos cenários que compõem o filme.

Melhor maquiagem/cabelo: Vice - A transformação de Christian Bale em Dick Cheney diz por si só. Trabalho fenomenal.

Melhor figurino: A Favorita - Mais uma vez, "A Favorita" deve levar uma categoria essencialmente visual devido ao seu esmero conceitual.

Melhor roteiro adaptado: Infiltrado na Klan - Provavelmente o único prêmio dado a esse importante longa. Uma forma de reconhecimento ao gênio Spike Lee.

Melhor roteiro original: A Favorita - A Favorita conta com a abordagem mais autoral da temporada, mas não seria surpresa de "Green Book: O Guia" levasse.

Melhor direção: Alfonso Cuarón, por Roma - Em uma categoria recheada de bons nomes, Cuarón deve levar pelo conjunto da obra.

Melhor ator coadjuvante: Mahershala Ali, por Green Book:O Guia - Outra categoria fácil, já que Ali é o dono do longa e ganhou todos os prêmios até aqui.

Melhor atriz coadjuvante: Rachel Weisz, por A Favorita - Categoria extremamente difícil, mas o recente crescimento de "A Favorita" tende a facilitar as coisas para o segundo Oscar da atriz. Porém, não descartaria a presença de Regina King, por "Se a Rua Beale Falasse".

Melhor ator: Rami Malek, por Bohemian Rhapsody - Apesar das controvérsias, Rami Malek deve levar o prêmio pela persona que Freddie Mercury inspira e pelo intenso lobby em torno do ator.

Melhor atriz: Gleen Close, por A Esposa - Dona do filme, esse prêmio não incluirá só "A Esposa", mas toda uma carreira competente. Merecido.

Melhor filme: Roma - É o melhor filme da temporada e seria uma premiação interessante para o futuro do cinema em streaming. "Infiltrado na Klan", "Green Book: O Guia" e "A Favorita" correm por fora.

Confira abaixo críticas de alguns dos filmes indicados no Oscar 2019:

- João Hippert

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Crítica de "A Favorita"

Existe determinado tipo de filme que, realmente, não se encaixa em um padrão palatável para todos. Às vezes, um roteiro escrito de uma forma não-convencional e uma direção mais autoral inspiram uma espécie de repulsa por parte do público, que considera o filme "diferentão" ou, talvez, pretensioso demais. "Trama Fantasma", por exemplo, que é o melhor filme da temporada de premiações de 2018, não foi completamente aceito, principalmente devido a suas inovações conceituais e seu jogo psicológico entre os personagens. Coube ao amável - porém pouco inspirado - "A Forma da Água" ser o grande vencedor do Oscar, o que demonstra uma certa aversão aquilo que é original pela indústria. Dito isso, chegamos na grande persona que caracteriza esse estilo de filme: Yorgos Lanthimos. O grego é responsável por obras cheias de criatividade, tais como "O Lagosta" e "O Sacrifício do Cervo Sagrado" - filmes nada óbvios que buscam desenvolver conceitos complexos por meio de um roteiro que tende ao absurdo. Nesse sentido, quando foi anunciada a produção de "A Favorita" houve um estranhamento inicial. Como um diretor desses seria capaz de realizar uma obra de época, baseada em personagens reais e que se passa, basicamente, dentro de uma Corte? O que Lanthimos demonstra, no entanto, é uma completa habilidade em transferir o seu estilo cinematográfico para qualquer tipo de história, o que corrobora a sua original voz artística. E é sempre bom quando artistas como ele são reconhecidos pelas premiações, pois isso estimula filmes que "pensam fora da caixinha" e contribui para a fuga do processo de padronização hollywoodiano. "A Favorita", portanto, conta a história da rainha inglesa Anne (Olivia Colman), em um período de guerra com a França. Ela é aconselhada pela Lady Sarah (Rachel Weisz), que parece ser quem, de fato, toma as decisões. As coisas começam a mudar quando uma serva, Abigail (Emma Stone), entra em cena e estimula uma série de conflitos.

O roteiro é, sem sombra de dúvidas, o ponto alto do filme. Isso porque o mérito de "A Favorita" está totalmente na abordagem diferente que se dá para o enredo, já que as passagens históricas são apenas plano de fundo para um profundo estudo de personagens. Os roteiristas Tony McNamara e Deborah Davis apostam no desenvolvimento conceitual acerca do poder nas relações, dentro de um próprio ambiente de poder. É como se todo o "storytelling" do filme se baseasse na relação entre o trio protagonista, e o eterno embate entre elas para ver quem tem o domínio de determinada situação. Dessa forma, é impossível não lembrarmos da dialética do senhor e do escravo de Hegel: o filósofo defendia uma tese de que todas as relações humanas são baseadas em um jogo de poder entre dominador e dominado, sendo tal jogo definidor dos alicerces da História. Assim, "A Favorita", por meio de uma construção de personagens incrível, traduz tal teoria a ponto de ser um filme que conta, basicamente, os conflitos entre as personagens. É interessante notar que, as três personagens, mesmo que ocupando classes sociais diferentes, assim como cargos de influência distintos, apresentam uma relação de poder bastante única. Por exemplo: a rainha Anne é claramente bastante subordinada aos desejos de Lady Sarah que, por sua vez, sente a chegada iminente de uma ameaça: Abigail. Mesmo assim, tais nuances narrativas nunca permanecem estáticas: somos apresentados sempre a situações que subvertem a posição de cada personagem em relação à outra, e esse é o grande mérito do roteiro em prender a atenção do espectador. "A Favorita" trata, basicamente, das intrigas nos bastidores do poder, em um contexto onde a amoralidade é celebrada. Além disso, é perceptível o revisionismo histórico a respeito da banalização das cortes, já que somos apresentados a jogos, festas, corridas de pato e ornamentos que tendem ao ridículo.

Entretanto, mesmo que o roteiro original seja a base para um bom funcionamento da narrativa, "A Favorita" também é um filme de elenco. Afinal, seriam necessárias três grandes atrizes para interpretar toda a complexidade de cada personagem. Felizmente, aqui temos um dos melhores elencos do ano, com um nível de destaque altíssimo. Olivia Colman, no papel principal, é a que mais impressiona, principalmente, nas cenas em que a personagem reage a determinadas situações. Colman é capaz de transmitir uma espécie de inocência aliada a uma pitada de paranoia, envolta em um passado de perdas e tragédias que expulsam a rainha Anne de qualquer traço convencional. Colman retrata uma rainha quebrada, com graves problemas de autoestima e emocional, mas que nunca deixa de ser menos imponente por causa disso. A rainha Anne só parece recuar diante de Lady Sarah, interpretada por Rachel Weisz. Esta apresenta-se como um contraponto à rainha, mostrando confiança e certeza de suas próprias ações. Weisz consegue construir um tom ameaçador a cada fala da personagem, assim como uma passionalidade em tudo relacionado à rainha e à Inglaterra. Trata-se de uma atuação extremadamente poderosa, e que impacta devido à intensidade demonstrada. Por fim, Emma Stone demonstra sua versatilidade ao interpretar a personagem mais dúbia da história. Se ao início da sessão somos impelidos a torcer por Abigail, seja pelo seu jeito doce, seja pelo seu passado; com o decorrer da metragem não temos mais tanta certeza assim. E a cena em que a personagem diz: "Eu estou do meu lado. Sempre." corrobora muito esse fato, já que Abigail mostra jogar de acordo com o jogo, sendo capaz de ser gentil, mas também de ser má, variando de acordo com a situação. Emma Stone apresenta um domínio muito grande nas transições emocionais às quais a personagem é submetida, e, devido ao seu forte carisma, nunca é capaz de afastar completamente a torcida do público por Abigail.

Toda essa complexidade narrativa e de relações é competentemente orquestrada pelo diretor Yorgos Lanthimos, que parece ter controle sobre tudo que temos em tela. Aqui, Lanthimos utiliza do artifício dos planos abertos que exaltam a ambientação do longa. Além disso auxiliar no trabalho fotográfico, que é lindíssimo, tal decisão serve para enaltecer o ambiente de poder em detrimento à pequenez do ser humano. É como se o mundo fosse grande demais para tamanha mesquinharia e, dessa forma, uma Corte gigantesca reflete justamente essa desigualdade de poder que o filme tanto aborda. Além disso, Lanthimos também faz uso de lente "fish-eye" para prover um senso de profundidade interessante, que auxilia na imersão do espectador na história. Aliás, tecnicamente o filme também merece elogios devido ao seu figurino, maquiagem e direção de arte fantásticos. O contraste entre as intrigas das personagens e o ambiente fabuloso contribuem para o tom cômico que o filme procura. "A Favorita", apesar de abordar temas filosoficamente complexos, também pode ser analisado como uma peça teatral cômica, que se utiliza das situações absurdas e do desdém dos personagens em relação a determinadas construções sociais para conferir humor ao longa. Em aliança a isso, temos uma trilha sonora bastante oportuna e atuante, que dá tom sarcástico às inúmeras situações absurdas apresentadas. "A Favorita", logo, não é um filme para qualquer um, por apostar em conceitos muito diferentes, uma direção inovadora e um roteiro baseado em conflitos entre as personagens. Mesmo assim, trata-se de um complexo estudo filosófico acerca dos bastidores do poder que merece ser visto. Contando com uma limpeza visual estonteante, "A Favorita" se baseia em um roteiro atilado que trata das diferentes facetas acerca da relação dominador-dominado, expresso pelo melhor elenco do ano, sob uma direção inovadora e segura.

Nota: 


- João Hippert

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Crítica de "Assunto de Família"

Uma das grandes maravilhas da sétima arte é a sua possibilidade de nos transportar para ambientes inimagináveis, e não precisa ser um filme de fantasia para atingir tal objetivo. Basta estarmos imersos em uma realidade diferente da nossa - seja no contexto social, histórico ou espacial - que já somos impelidos a exercer um dos sentimentos mais nobres do ser humano: a empatia. O cinema, como arte imersiva que se propõe, tem muita capacidade empática por, através da visão de um diretor, conseguir nos fazer enxergar realidades diferentes de maneiras distintas. É por isso que quando um filme totalmente original sobre um contexto diverso tem o poder de impactar tanto. Nesse sentido, "Assunto de Família" se ampara muito no impacto que produz, tanto sociologicamente quanto (por que não?) existencialmente. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado ao Oscar de filme estrangeiro, o filme acompanha uma família de baixa renda no Japão, que vive de pequenos furtos e trabalhos temporários. Mesmo assim, não há espaço para tristeza - muito pelo contrário - somos apresentados a um ambiente que, apesar de contraditório, mostra-se bastante acolhedor, principalmente depois que a pequena Yuri se junta ao grupo. Porém, não se engane: o filme, em nenhum momento, busca romantizar a pobreza: as dificuldades são evidentes e os furtos, por exemplo, não são isentos de conflito moral. A qualidade do roteiro, contudo, é deixar tudo imersivo e verídico e, mesmo que possamos não concordar com as situações sob um ponto de vista frio, é impossível não se importar com os personagens sob um ponto de vista mais passional.

Aliás, o roteiro de Hirokazu Koreeda tem muito mérito na transmissão dos sentimentos ao público. Mesmo que os moradores da casa não apresentem grau de parentesco em sua maioria, as relações entre eles são construídas de uma forma bastante sutil. Repare que, embora existam 6 integrantes na casa (a avó, o casal adulto, a mulher adulta e as duas crianças), todos têm as suas características definidas, assim como a sua própria jornada. E é interessante notar como a mescla das diversas situações não complicam o filme, mas sim facilitam sua proposta. Por exemplo: por um lado somos apresentados a uma avó cuidadosa que recebe uma indenização pelo fato de morar sozinha, mas, na verdade, abriga 5 pessoas em sua casa. Nesse sentido, a senhora não segue a lei estritamente, mas ao mesmo tempo, tem seus últimos dias de vida ao lado de pessoas que, apesar de tudo, se importam com ela. Por outro lado, temos um casal aparentemente feliz, mas que, devido à correria do cotidiano, não se permite mais o prazer do sexo. Os dois parecem estar em uma busca por sintonia e um retorno à sensualidade, o que o roteiro desenvolve com certa destreza. Ainda assim, temos duas crianças com suas brincadeiras pelas ruas japonesas e uma jovem adulta que trabalha em uma espécie de bordel para obter uma renda maior. Embora o número de personagens pareça excessivo, assim como as suas histórias, o grande mérito do longa é juntar tudo isso de forma a transparecer o real retrato de uma família. Como o próprio nome em português já diz, "Assunto de Família" busca fazer um estudo meticuloso da reunião de pessoas queridas em uma casa, mesmo que não seja por laços sanguíneos. E a habilidade em definir o conceito de família como algo construído através de carinho e amor é gerada, também, pela apresentação de outros núcleos familiares, que, por sua vez, são tóxicos e prejudiciais ao desenvolvimento dos membros.

Nesse sentido, é impossível não interpretar tal história como um reflexo da modernidade líquida, afinal as relações parecem não ter fortaleça, mesmo sendo de sangue. A família a que somos apresentados, no entanto, apesar de seus meios ilícitos (aparentemente todos têm algo a esconder), parece sustentar uma base forte de relacionamento, o que torna tudo tão aconchegante. "Assunto de Família" é um filme doce, repleto de carinho e paixão, ao mesmo tempo que não se exime de realizar críticas sociais a respeito da diferença de classes. Outro grande ponto da metragem no que diz respeito ao conceito de família em si é a construção das diferentes relações possíveis em um ambiente familiar. Com a chegada da pequena Yuri, o espectador percebe a jornada da menininha se tornando irmã do menino Shota e filha de Osamu e Nobuyo, o que se desenvolve de maneira bastante calma, todavia verossímil. Nesse ínterim, a direção do também roteirista Koreeda é competente assertiva em criar tal ambientação agradável, desde o início da metragem. Como a principal proposta do filme é desenvolver a relação dos moradores daquela casa, as tomadas se desenvolvem de maneira muito fechada, e a movimentação se limita, basicamente, à própria casa. Mesmo assim, através de um movimento de câmera bem lento e, muitas vezes estático, Koreeda é capaz de criar esse senso de imersão, fazendo o público se sentir confortável em acompanhar a jornada diária daqueles personagens. Quando um filme consegue fazer com que nos importemos com seus personagens, não importando as consequências, o diretor merece muito mérito por conseguir arquitetar tal realização. E aqui, o que acontece é isso: em "Assunto de Família" nós achamos fofo, nós nos emocionamos, nós sentimos raiva - enfim, nós sentimos. É um filme de puro sentimento que desenvolve seu conceito principal de maneira cativante.

Ademais, é válido ressaltar a parte final do longa, quando o clímax é atingido. Koreeda toma uma decisão muito ousada, pois desconstrói tudo que foi apresentado durante o longa. Mas, ao invés disso invalidar o próprio discurso do filme, ele se engrandece, devido ao forte comentário social que acarreta. E, mais uma vez, o filme se afasta de uma possível romantização da pobreza para, no fim, defender, mais uma vez, a validade das relações familiares pautadas no carinho e na importância que se dá ao outro. "Assunto de Família" encanta mesmo pela versatilidade quanto aos temas, assim como em relação à profundidade como são abordados. Trata-se de uma película que diverte pelas situações cotidianas, emociona pelas chegadas e partidas e, simplesmente, retrata uma realidade completamente diferente da que estamos acostumados, de forma crítica e desconstruída. "Assunto de Família" é um poderoso estudo social que ganha força com o afeto transmitido, por meio de uma família que, mesmo sendo desfuncional, também mostra-se deveras amorosa e completamente aconchegante.

Nota: 


- João Hippert

Crítica de "Guerra Fria"

A temporada de premiações, apesar de suscitar diversas críticas e ser mais política do que artística, também tem seus méritos por popularizar determinado tipo de filme que o público em geral não tem acesso. A categoria de filme estrangeiro no Oscar, por exemplo, normalmente contém as películas mais autorais e diferenciadas do ano, o que é ótimo para valorizar o trabalho de diferentes diretores ao redor do mundo. E quando a Academia tira o chapéu para um filme estrangeiro a ponto de indicá-lo também a outras 2 categorias (fotografia e direção), o filme merece atenção. "Guerra Fria" conta, basicamente, a história de um maestro e compositor polonês chamado Wiktor (Tomasz Kot), durante os anos 1950, nas suas indas e vindas pelo país com uma companhia de música folclórica, onde encontra o amor de sua vida: a extrovertida cantora Zula (Joanna Kulig). A partir daí somos apresentados à relação entre os dois: seus momentos de felicidade juntos, assim como as dificuldades que enfrentam. O roteiro de Pawel Pawlikovski e Janusz Glowacki é de uma destreza enorme por conseguir desenvolver temas profundos em praticamente 80 minutos de metragem. É como se o roteiro se preocupasse basicamente em situar os personagens em determinada época e ambiente, e deixasse o resto por conta dos atores. Em nenhum momento somos apresentados a alguma exposição do roteiro e ele não se preocupa em explicar, de maneira explícita, o porquê das situações. Assim, o texto é capaz de criar uma atmosfera vintage deveras interessante que corrobora o tema que o filme propõe: os amores perdidos.

 Além disso, podemos citar a validade histórica do longa como algo importante, já que conta um lado da história que raramente é transferido para as telonas devido ao predomínio da indústria cultural estadunidense. Aqui, somos apresentados a um ambiente que contém camponeses e proletários na parte comunista do planeta no auge do stalinismo. É interessante a ambientação que o filme propõe, principalmente no que diz respeito aos costumes e, é claro, às músicas. Aliás, a parte lírica do longa é excelente: além de funcionar com a estética do filme, a trilha sonora conversa com os acontecimentos retratados em vídeo, criando um senso de harmonia muito oportuno. Mesmo com esse acerto de abordagem histórica, "Guerra Fria" é um filme que fala, essencialmente, dos encontros e desencontros do amor, das suas chegadas e partidas, dos seus desejos e de seus medos. Partindo para uma abordagem bem mais crua do que melodramática,  "Guerra Fria" desenvolve a relação de Wiktor com Zula de forma tão arrebatadora que é impossível não acreditar naquela história. Como tudo na vida, as pessoas creem naquilo que é feito com sinceridade e a exposição das fraquezas dos protagonistas auxiliam nesse processo de identificação com o casal. E não se engane com o título do longa, afinal "Guerra Fria" pode significar apenas um momento histórico pelo qual os personagens passaram juntos, mas também pela própria relação deles em si. Ora, existe uma áurea em volta de Wiktor e Zula que inspira uma espécie de insegurança, como algo que estivesse prestes a explodir a qualquer momento. Isso demonstra o interessante trabalho do roteiro na construção dessa relação, assim como a química do casal.

Aliás, nesse sentido, a presença dos atores é crucial. Tomasz Kot entrega um homem bruto, reservado, cultíssimo, mas com muitos medos e receios, devido ao seu posicionamento político e a sua insegurança pessoal. Kot é capaz de desenvolver diversas facetas em um personagem que trafega na linha tênue entre o mocinho e o anti-herói, já que muitas das ações são controversas, e o personagem nunca parece mostrar seu verdadeiro lado. Joanna Kulig, por sua vez, apresenta uma das atuações mais encantadoras do ano, por, justamente, prover um carisma fora do comum à sua personagem. Se Wiktor se mostra um homem frágil e inseguro, Zula é o fiel retrato de uma mulher ousada e que sabe o que quer. Dessa forma, sua presença em cena é muito marcante, e extremamente preponderante para o sucesso do longa. A química entre os dois é favorecida, também, pelo excelente trabalho do diretor Pawel Pawlikovski ("Ida"). Aqui, temos o uso de uma câmera bem estática, que aproveita das ações e reações dos próprios atores. Além disso, o diretor em aliança com o diretor de fotografia, é capaz de prover quadros belíssimos, com um tom completamente contemplativo e agridoce. A fotografia em preto e branco serve para situar o filme historicamente - parece que estamos acompanhando um filme dos anos 1950 -, mas, assim como em "Roma", também tem um significado narrativo muito poderoso. Note que, mesmo sem cores, o filme parece ter um brilho próprio à medida que o amor entre Wiktor e Zula se desenvolve, e a escolha de Pawel em deixar o público tomar fôlego para absorver cada momento de contemplação é deveras acertada.

Outro grande acerto da metragem é sua duração. São 80 minutos muito bem montados, que remontam a um trabalho de direção meticuloso e um roteiro bem redondo. "Guerra Fria" é capaz de se fazer entender, assim como emocionar, em um curto espaço de tempo, já que, devido às diferentes facetas cinematográficas, se faz eficiente ao extremo. Trata-se de uma experiência deveras sensorial, já que estimula em demasia a visão. Porém, mesmo que tenha uma técnica apurada, o filme não se limita a isso à proporção que desenvolve sua própria história de amor. Aqui o amor não é perfeito, não é idealizado, não é dilacerador, mas é real. Um amor tão real que transcende tempo, espaço, situação política e que, mesmo com altos e baixos, sempre continua ali. Mesmo que adormecido, a presença do outro é sempre sentida e o filme parece querer demonstrar que um coração que um dia ama, jamais esquece. Assim, "Guerra Fria" é uma obra contemplativa, que desenvolve os encontros e desencontros de um amor real, por meio de uma cinematografia estonteante e uma direção absolutamente segura.

Nota: 

- João Hippert

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Crítica de "Vice"

Se tempos atrás, alguém anunciasse que Adam McKay, responsável por filmes como "O Âncora" e "Tudo por um Furo", seria reconhecido pela Academia do Oscar essa pessoa receberia uma bela desacreditada. Contudo, para a surpresa de todos, Adam McKay, no ano de 2015, realizou "A Grande Aposta": filme que funciona demais, em diversos aspectos diferentes. Mesmo tratando de uma história real - a grande crise imobiliária de 2008 -, o filme aposta em uma abordagem mais divertida e cômica para explicar conceitos complexos e situações absurdas. Impossível esquecer da icônica cena em que a Margot Robbie, na banheira, explica diretamente para o espectador os significados de determinados conceitos de economia. Eis que chegamos em 2018, e Adam McKay surge com um projeto que apresenta o mesmo tom proposto por "A Grande Aposta", mas agora sob um viés político. "Vice" acompanha a trajetória política do estadunidense Dick Cheney (Christian Bale), figura deveras controversa e que ganhou destaque quando tornou-se o Vice-Presidente de George W. Bush. Também  somos apresentados à relação de Dick com sua família, principalmente com a esposa Lynne (Amy Adams). Primeiramente, é válido ressaltar a grande semelhança que esse filme possui com o cinema apresentado em "A Grande Aposta", no sentido de que não é para qualquer um. Trata-se de um humor bem ácido, ágil e absurdo - algo que pode vir a incomodar aqueles que esperam um filme pragmático sobre um político pragmático. Definitivamente não é o que se encontra em "Vice".

O roteiro, de autoria de McKay, tem grandes méritos, principalmente no desenvolvimento do protagonista. Desde o início somos impelidos a gostar de Dick, mas não pela sua índole, o que demonstra um trabalho de articulação narrativa bem interessante do roteiro. Por exemplo: existe uma cena em que um personagem específico exalta a capacidade de convencimento de Dick: é como se tudo que ele fala tivesse uma espécie de áurea de coerência e razoabilidade. E é exatamente esse Dick que é apresentado aqui: um homem que, mesmo com ações extremamente deploráveis, principalmente no que se refere à guerra ao terror, também tinha suas convicções e problemas pessoais. Essa opção por não demonizar totalmente a figura do vice-presidente também serve para ajudar na construção do arco dramático do longa. Uma grande virada narrativa, introduzida pelo desenvolvimento de Dick e sua família, acontece justamente no conflito entre o fato do político ter uma filha homossexual ao mesmo tempo que precisa ser contrário à união homoafetiva devido à sua base eleitoral. Esse pequenos devaneios inseridos na história de Dick trazem uma complexidade muito bem-vinda ao personagem e, não se assuste, se McKay optar por uma pegada similar a de "House of Cards" no final. Não seria absurdo compararmos Dick Cheney com Frank Underwood. Por outro lado, Lynne Cheney também apresenta uma jornada bem palpável: mesmo que acompanhe o marido em sua vida política, Lynne parece sempre tomar as rédeas da situação, mostrando muito segurança em todo o filme. Isso também é facilitado pela excelente atuação de Amy Adams que consegue, com habilidade, trazer diversas facetas à personagem, e seu senso de superioridade convence à medida que o público sempre acha que Lynne tem tudo sob controle, o que também remete à Claire Underwood de "House of Cards".

Aliás, em termos de atuação, "Vice" contempla um cenário muito satisfatório. Além da já citada Amy Adams, o elenco coadjuvante conta com o hilário Steve Carell interpretando um político lunático, que representa o exagero da cobiça de determinada classe política e tal opção reverbera a crítica proposta pelo filme, já que não é muito difícil pensar que podem existir políticos exatamente desse jeito atuando ao redor do mundo. Sam Rocwell interpreta o polêmico ex-presidente dos EUA, George W. Bush, e consegue realizar um trabalho eficiente, ainda que não fuja muito da caricatura expressa pela figura pública de Bush. Mas, sem sombra de dúvidas, o grande destaque fica com Christian Bale, que entrega uma das melhores atuações do ano, demonstrando, mais uma vez, sua versatilidade. E ela não se limita à transformação física: Bale incorpora o sotaque de Cheney, suas pausas para falar, sua respiração pesada, seu olhar ameaçador e confiante. Toda a complexidade que o roteiro oferece é extremamente aproveitada por Bale nessa atuação excelente, que consegue, também, criar química com os demais personagens. Os diálogos são bem escritos à medida que acompanham bem o desenrolar da história. Além disso, a quebra da quarta parede - um recurso humorístico pilar dos filmes de McKay - contribui para a quebra de expectativa gerada no espectador, além de conseguir, de forma simplificada, explicar o complicado mundo da política ao leigo. Mesmo que isso acarrete uma exposição demasiada e dificulte um pouco o ritmo da metragem - principalmente no início do terço final -, é importante pelo didatismo que o filme impõe e a relevância de sua mensagem consegue ser mais acessível. Desse modo, "Vice" pode ser controverso, pois tenta explicar demais, ao mesmo tempo que isso pode ser uma qualidade devido à sua preocupação com a didática do longa.

Nesse sentido, porém, a direção de McKay é assertiva durante praticamente toda a obra, contando também com uma montagem bem executada e transições muito meticulosas. O movimento de câmera é bastante coerente: sempre condiz com o que está sendo apresentado em cena. Talvez o grande problema do filme seja a sua duração elevada, pois como existem muitas informações passadas ao espectador, o terço final é realmente cansativo. Uma direção mais acelerada nessa parte em aliança a uma montagem mais corretiva teria dado mais dinâmica ao longa e impediria o enfado final. Mesmo assim, "Vice" é um grande deleite, por, justamente, apresentar um filme histórico, mas que não precisa ser necessariamente um drama. Ao mesmo tempo que é capaz de relatar fatos importantes para o entendimento da geopolítica mundial atual, o filme diverte pela abordagem leve e pelas gags inseridas, que apresentam um timing cômico perfeito. McKay acerta, também, em trazer atores familiarizados com o drama e com a comédia, o que permite a ele transitar com qualidade entre os diferentes gêneros. Ademais, o filme fala sobre os bastidores do poder de uma forma bastante acessível, e as discussões que ele propõe são extremamente pertinentes por, justamente, nos fazer pensar sobre a nossa democracia e o nosso papel como eleitor. "Vice" é uma comédia muito eficiente sobre os bastidores do poder, contando com um elenco de destaque e um roteiro que apresenta um timing cômico ideal.

Nota: 

- João Hippert

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Crítica de "Minha Fama de Mau"

O mercado das cinebiografias está cada vez mais em alta nos dias atuais. Basta reconhecermos o sucesso do controverso "Bohemian Rapsody", que, no Brasil, foi apelidado de "filme do Queen", indicado ao Oscar em diversas categorias, além de ser um completo sucesso de bilheteria. Já no cinema nacional, podemos dizer que existe uma tendência recente das grandes produções retratarem a vida dos nossos artistas. "Tim Maia" e "Elis" são ótimos exemplos de cinebiografias nacionais de qualidade e genuinamente brasileiras. Era somente uma questão de tempo até que um dos movimentos musicais mais populares no nosso país ganhasse sua representação nas telonas. A Jovem Guarda, sob o comando de Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Wanderléa foi um programa televisivo de grande audiência na década de 1960. Cantando músicas no estilo "iêiêiê", sem se importar com as críticas da juventude politizada da época, a Jovem Guarda obteve um alcance estrondoso, em todo o território nacional, levando seus protagonistas a um estrelato que perdura até hoje. Apostando em músicas que falavam de amor e romances, Roberto, Wanderléa e Erasmo foram alvo de duras críticas da cena musical da época, por ser considerada uma música alienante, dado o contexto de Ditadura Militar brasileira. Dito isso, "Minha Fama de Mau", baseado na autobiografia de Erasmo, acompanha a ascensão da Jovem Guarda sob o viés do garoto Erasmo - um tijucano sonhador, de muito carisma em busca da afirmação no cenário do rock brasileiro. Primeiramente, é perceptível que esse filme não vai agradar a todos, principalmente porque a própria Jovem Guarda tem seus críticos ferrenhos. Apostando em uma abordagem condizente com o iêiêiê do trio, "Minha Fama de Mau" retrata um Rio de Janeiro romântico, vintage e oportuno para o surgimento de amizades que impactariam todo o território nacional.

Com roteiro de L.G. Bayão, Lui Farias e Letícia Mey, "Minha Fama de Mau" tem como pilar a sua coragem em permanecer fiel a tudo o que a Jovem Guarda inspira. Criando um personagem extremamente carismático na figura de Erasmo, o roteiro consegue conduzir muito bem as duas horas de filme com uma naturalidade incrível. Alternando momentos de diversão e emoção, a história consegue ter um andamento com uma cadência desejável, tendo um ritmo agradável. Aliás, agradável é o adjetivo que melhor expressa a experiência cinematográfica que é "Minha Fama de Mau": sem se preocupar em desenvolver conflitos de drama profundo, como acontece nos já citados "Tim Maia" e "Elis", o filme aposta em um clima ameno para retratar seus protagonistas. Nesse sentido, o tom que o filme evoca parece comparar, com as devidas proporções, o trio da Jovem Guarda com os Beatles, devido ao estilo das músicas, a histeria das fãs e o sucesso estrondoso. Mesmo assim, conseguimos perceber, de forma nítida, através de gírias e costumes da época, um movimento essencialmente brasileiro, mesmo que possua, até certo ponto, um caráter "acrítico". Tangenciando esse tema por meio de entrevistas de Erasmo, "Minha Fama de Mau" é muito mais nostálgico do que revisionista, o que pode incomodar aqueles que não dissociam movimentos culturais com política. Porém, o trabalho proposto pelo filme é tão leve que diverte, emociona e nos transporta para um tempo passado, conseguindo, com clareza, transmitir as principais fases da carreira de Erasmo, com Roberto e Wanderléa ao fundo. Todo esse didatismo é proporcionado pela opção de um narrador-protagonista, e se não fosse o carisma de Chay Suede, a escolha seria fracassada. Porém, inserindo comentários engraçados e extremamente conectados com o linguajar da época, o narrador cria um vínculo bastante interessante com o público, tornando-se um recurso favorável ao storytelling.

Aliás, Chay Suede impressiona na interpretação de Erasmo Carlos, trazendo um carisma e uma presença de cena condizentes com a proposta do filme. Mesmo que ainda falta alcance dramático ao ator, Chay consegue carregar a metragem com uma facilidade surpreendente e, se o filme funciona como entretenimento, o ator tem muito mérito nesse sentido. Ao mesmo tempo, Gabriel Leone tem a difícil tarefa de dar vida a um dos maiores ídolos da música popular brasileira, que é até chamado de rei. O ator, entretanto, consegue interpretar Roberto de uma forma muito doce e charmosa, fazendo com que o espectador realmente mergulhe na juventude do cantor - e é impossível não sentir simpatia por Roberto no filme. Por último, temos um grande ponto negativo do longa que é a representação de Wanderléa. É difícil culpar a atriz Malu Rodrigues pela falta de carisma conferida à cantora, já que o roteiro não dá profundidade nenhuma à personagem. Aliás, existem até certos conflitos que parecem promissores e são relacionados à Wanderléa que são simplesmente esquecidos. Mas o que mais incomoda é a presença da atriz no palco, pois inspira uma verossimilhança muito baixa - o espectador é capaz de perceber que ela não está realmente cantando, o que prejudica a imersão necessária à história. Aliás, o longa tem uma quantidade excessiva de músicas, o que tem seu lado positivo e negativo. Por um lado, serve como parâmetro temporal para estabelecer os sucessos do trio, mas, por outro, quebra um pouco do ritmo da metragem, principalmente, pela longa duração dos números musiciais. Por exemplo, em certa cena temos um conflito tenso entre dois personagens e na cena seguinte já temos uma sequência musical completa. O público não tem muito tempo para processar os acontecimentos do filme e, talvez esse excesso de músicas tire o encanto das primeiras apresentações que acompanhamos. Desse modo, também se torna uma avaliação subjetiva, já que depende bastante do gosto musical de cada um e sua afinidade ao que foi apresentado pela Jovem Guarda.

A direção de Lui Farias é eficiente na condução do filme como um todo, já que "Minha Fama de Mau" tem seus arcos narrativos muito bem definidos e divididos. O diretor parece ter clareza acerca de onde quer chegar com a história, o que demonstra um domínio narrativo muito grande. Por outro lado, é clara a falta de técnica de Lui, já que existem erros básicos de movimentação de câmera claramente perceptíveis. É como se um corte não encaixasse no seguinte, o que promove um estranhamento em relação à continuidade do longa. Assim, o filme apresenta uma certa negligência com a montagem, que deixa esses pequenos erros passarem, o que diminui a qualidade técnica do filme. Aliás, "Minha Fama de Mau" é um daqueles típicos filmes que se sustentam pela história por trás e não pela realização cinematográfica em si. Mesmo que com roteiro seguro e protagonistas carismáticos, a qualidade de produção é prejudicada pela movimentação de câmera desconexa. Apesar disso, o filme consegue atingir seu objetivo inicial: prover um sentimento de nostalgia a quem vivem essa época ao mesmo tempo que serve de apresentação à geração mais jovem. Por isso, é impossível desmerecer "Minha Fama de Mau", também, pela sua importância cultural, tendo em vista que a Jovem Guarda, mesmo que controversa, impactou toda a nação. Apostando no tom romântico inerente à Jovem Guarda, "Minha Fama de Mau" é uma experiência agradável sobre um dos trios mais influentes da música popular brasileira.

Nota: 

- João Hippert

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Crítica de "Uma Aventura Lego 2"

Em 2014, chegava aos cinemas uma animação bem diferente do padrão do mercado: "Uma Aventura Lego". Em meio a criação de universos fantásticos como os da Dream Works ou das histórias que nos emocionam da Pixar, o filme parecia querer trazer à tona a memória de um brinquedo muito recorrente na vida de milhões de pessoas. Afinal, quem nunca brincou com as peças da Lego quando criança? Seguindo o parâmetro que a empresa já havia estabelecido no mercado dos videogames, "Lego Movie" surgiu como uma aventura despretensiosa, focada na diversão e entretenimento, contando com arcos simples dos protagonistas e muitos crossovers. Nesse sentido, é muito fácil lembrar da presença de um Batman totalmente incomum como coadjuvante e não foi de se assustar a produção de um filme solo do herói: "Lego Batman". Seguindo os mesmos conceitos de seu predecessor, o filme acertava em apostar na diversão escapista e na boa construção de personagens. Eis que chegamos em 2019 com a continuação direta de "Uma Aventura Lego", onde Emmet parte em uma aventura onde precisa provar sua maturidade para salvar seus amigos de uma espécie de apocalipse. Ao mesmo tempo, Lucy busca impedir seus amigos de uma lavagem cerebral promovida por uma princesa deveras duvidosa.

Tendo como referência "Toy Story 3", o roteiro de Christopher Miller e Phil Lord acerta na manutenção de tom do filme anterior. Mesmo que aqui sejamos apresentados a algumas questões mais complexas, o plano de fundo divertido ainda se sobressai. E, pensando no público alvo da película, que é claramente o infantil, "Uma Aventura Lego 2" parece bem seguro da mensagem que quer passar, tanto no conteúdo, quanto na forma. Mesmo que a primeira metade do longa se resuma a uma jornada do herói típica e construa um ambiente de tensão, também é possível perceber uma clara crítica à alienação do mundo pós-moderno, além da própria padronização dos gostos promovida pela ascensão da cultura de massas. Além disso, somos apresentados a um Emmet considerado "fraco" pela sociedade que o rodeia e que, inclusive, é considerado incapaz de ser líder, justamente, por essa sua incapacidade de ser "durão". Emmet, como descobrimos no primeiro filme, é um personagem doce, sensível e esperançoso e, para ele, tudo é realmente incrível. Assim, o filme flerta com a discussão acerca das pessoas sonhadoras de tempos sombrios e como é muito mais fácil se submeter ao caos de um ambiente inóspito. Dessa forma, acompanhamos a jornada de um personagem puro se transformando em um ser amargurado, e o fato disso ser visto de forma benéfica pela sociedade, diz muito sobre a mensagem que o filme quer passar. "Uma Aventura Lego 2" é sobre aceitar a essência do ser, independentemente do ambiente em que estiver inserido, e que mesmo que tudo conspire contra, é necessário sempre ser sincero, principalmente, consigo mesmo. O mais interessante do roteiro, nesse ínterim, é a abordagem que dá à mensagem, por meio de uma reviravolta no início do terceiro ato que engrandece, em muito, a qualidade da metragem.

Aliás, o filme realmente só entrega a sua força no terço final que é, de fato, empolgante, emocionante e inspirador. Contudo, a demora no estabelecimento desse conflito prejudicou o ritmo do longa que, apesar de divertido, torna-se cansativo em determinadas cenas. Pode-se dizer que o filme com 10 a 15 minutos a menos teria uma duração ideal, e o trabalho do montador poderia ser mais ágil para otimizar isso. A direção, de Mike Mitchell ("Shrek Para Sempre"), é assertiva ao saber integrar os diferentes arcos dramáticos da história, assim como em inserir pistas narrativas que serão recompensadas ao final. Apesar de ser prejudicada por essa falta de ritmo inicial, a direção também consegue ser eficiente nas cenas de ação e aproveita-se de um trabalho de animação muito bem realizado, capaz de prover a leveza visual necessária em aliança à identidade visual da Lego. O grande mérito dos animadores do filme é conseguir conciliar as cenas de animação com as do mundo real e fazer com que a movimentação, as construções e tudo relacionado às peças Lego tenham uma coerência com o universo criado. Além disso, vale destacar a presença da música na metragem que, além de importante tematicamente, também auxilia muito na composição das cenas e nos pontos de virada da narrativa.

No quesito referências, as piadas são certeiras e responsáveis por grande parte do humor do filme. O grande leque de opções que a Lego possui contribui para uma liberdade criativa bem grande e o uso de tais referências à Liga da Justiça, à Marvel, ao Gandalf em aliança com a metalinguagem dão a leveza necessária. Porém, o que realmente distancia essa continuação de "Uma Aventura Lego" é sua preocupação com a mensagem final, com caráter bem mais dramático. Mesmo que possa parecer piegas ou forçada em um mundo que não tem mais esperanças, tal mensagem, principalmente em um filme infantil, tem um poder muito grande. Aprendemos com Emmet que não precisamos mudar a nossa essência somente para agradar, nem mesmo às pessoas de que gostamos. Se temos pessoas que gostam da gente atualmente, é justamente por aquilo que nos identifica e nos define, e qualquer mudança forçada seria, com certeza, uma catástrofe. Mas, mesmo assim, descobrimos que a vida de Emmet é uma jornada de autoconhecimento e amadurecimento e, ao final da sessão, conseguimos perceber a sua mudança inconsciente como personagem, capaz de utilizar o que achava uma fraqueza pessoal para tornar sua maior fortaleza. "Uma Aventura Lego 2" nos leva de volta a um mundo aconchegante e divertido, focando em um roteiro composto por uma reviravolta bem criativa e por uma mensagem inspiradora.

Nota: 



- João Hippert

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Crítica de "Creed II"

"Creed", lançado em 2015, foi a comprovação de que "reboots" de universos consagrados, quando bem feitos, podem funcionar. O grande mérito daquele filme do até então desconhecido Ryan Coogler (que recentemente fez história com "Pantera Negra") foi justamente entender a proposta do universo Rocky Balboa e adaptar isso para a realidade atual, apostando em uma nova linguagem, com personagens estreantes, porém extremamente carismáticos. A franquia Rocky, aliás, nunca foi muito sobre qualidade cinematográfica fria, mas sim sobre a mensagem impactante. Rocky Balboa talvez seja um dos personagens mais icônicos da história da sétima arte por ser genuinamente humano, com seus conflitos e vitórias, que foram muito potencializados, principalmente, pela capacidade de Stallone em demonstrar a vulnerabilidade - e certa inocência - do personagem ao longo da franquia. Eis que chegamos em "Creed" e conhecemos Adonis: um personagem muito mais temperamental e passional - mas não menos bem desenvolvido. "Creed II" chega então como uma possibilidade de amadurecimento desses personagens que aprendemos a admirar, ampliando as camadas do universo Rocky Balboa. O filme acompanha Adonis (Michael B. Jordan) em sua jornada de lutador de boxe, quando é desafiado pelo filho de Ivan Drago (Dolph Lundgren), Viktor Drago (Florian "Big Nasty" Munteanu) a uma revanche da luta que aconteceu entre Rocky (Sylvester Stallone) no quarto filme da franquia.

A premissa pode parecer genérica e até um pouco batida na franquia, mas o grande mérito do filme é o desenvolvimento dos personagens e, principalmente, o acréscimo de camadas à motivação de cada personagem. Michael B. Jordan interpreta um Creed que mescla orgulho e fraqueza, e seu carisma e naturalidade para encarar o personagem deixa a identificação do público muito mais fácil. Por outro lado, Stallone entrega um Rocky muito parecido com o filme antecessor, mas também consegue acrescentar um lado deveras humano ao personagem, apostando em reflexões acerca de arrependimentos e culpa. Nesse sentido, a jornada paralela de Rocky trata muito do que ele poderia ter feito e não fez, e como lidar com isso. Ao mesmo tempo que acompanhamos o orgulho de Adonis em manter a sua imagem de campeão do boxe, acompanhamos um Rocky com medo de ceder ao orgulho de não falar com o próprio filho. É interessante notar o espelhamento dos arcos dos personagens, porque ajuda a demonstrar que a jornada principal de Rocky já ficou para trás, e que agora o Creed é o real dono da franquia. Mesmo assim, essa dupla jornada é potencialmente favorecida pela imensa química entre os personagens, e a relação mentor-aprendiz passa ser praticamente uma jornada de pai-filho. Os diálogos protagonizados por dois são bem escritos e sempre exploram esse sentimento de orgulho e arrependimento compartilhado entre os dois, o que favorece bastante o tom emotivo do filme. Ao mesmo tempo, é válido destacar o desenvolvimento de Bianca (Tessa Thompson), que também tem um tempo considerável de tela e apresenta uma luta pessoal engrandecedora e desafiadora. O roteiro da continuação, portanto, acerta ao dar profundidade às lutas diárias de cada coadjuvante, o que ajuda também no desenvolvimento do arco do protagonista, já que a relação dele com cada um é bem explícita e entendida pelo espectador.

Ademais, o vilão de Big Nasty é encarado muito mais como um reflexo da vida que levou do que um homem de má índole, o que engrandece o sentimento de empatia que possuímos com ele. Se Ivan Drago segue o estereótipo raso de um russo mau em tempo de guerra fria (quando foi feito o quarto filme de Rocky), Viktor se apresenta como um personagem que tem mais a acrescentar à franquia, principalmente, por sua ambiguidade: forte dentro dos ringues e frágil fora deles. Além disso, "Creed II" consegue, com eficácia, acrescentar uma redenção deveras válida a Ivan Drago em uma cena memorável na parte final do filme. No quesito atuação, Big Nasty até consegue prover um trabalho razoável, mas seu ponto forte é sua fisicalidade e as cenas de luta em si. Aliás, as cenas de combate, apesar de não apresentarem a genialidade e a fluidez do primeiro filme, são bem arquitetadas e bastante verossímeis. O diretor Steven Caple Jr. aposta em tomadas fechadas e em um trabalho de coreografia bem encenado, o que favorece a fisicalidade já citada de Big Nasty e potencializa a dor de cada pancada. Nesse ínterim, "Creed II", através do jogo de câmera inteligente de Caple Jr., é praticamente um soco na cara do espectador, principalmente pela imersão provocada pela coreografia e pela entrega dos atores. Por outro lado, não é tão eficiente na movimentação fora dos ringues, o que prejudica um pouco o ritmo do filme e o desenvolvimento desejado.

"Creed II" como uma continuação é extremamente válido por oferecer camadas novas aos personagens que conhecemos em "Creed". Talvez o problema do filme esteja, contudo, na sua falta de peso enquanto obra isolada. Desse modo, o filme se limita aos fãs da franquia e que conhecem o material original, mas talvez seja pouco acessível a um passageiro de primeira viagem. Isso acontece pelo roteiro, apesar de eficiente no desenvolvimento dos personagens, aposta em viradas premeditadas e, ao final, nada muito memorável. As grandes cenas que ficarão na cabeça do espectador, com certeza, são aquelas que correspondem a diálogos poderosos entre personagens que gostamos, além, é claro, das cenas de luta. A mensagem da franquia, no entanto, continua forte e assistir a "Creed II" é um verdadeiro deleite para os fãs. Apesar de inferior ao seu antecessor, "Creed II" acerta ao ampliar o desenvolvimento de seus personagens e discutir temas como orgulho, culpa e arrependimento de forma eficaz e dinâmica.

Nota: 

- João Hippert

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Crítica de "Green Book: O Guia"

Aparentemente, Hollywood vem se esforçando cada vez mais para realizar filmes sobre a segregação racial existente no país. Desde a polêmica do "Oscar So White", filmes relevantes que abordam a temática vem sendo lançados e reconhecidos, tanto por parte do público, quanto pela crítica e premiações. Basta lembrarmos dos sucessos recentes, vencedores do Oscar de melhor filme: "12 Anos de Escravidão" e "Moonlight", a título de exemplo. 2018, no entanto, mostrou-se um ano extremamente rico nessa temática, provendo películas com abordagens diferentes, mas convergentes quanto à mensagem. Por um lado tivemos "Pantera Negra": um marco histórico do cinema mundial, sendo o primeiro filme de super-herói a ser indicado na categoria de melhor filme do Oscar. Por outro, (não é exagero falar) uma das melhores animações já feitas: "Homem-Aranha no Aranhaverso". Mas, o que chama a atenção desse ano e, principalmente, dessa temporada de premiações, é a presença de "Infiltrado na Klan" e "Green Book", já que eles são filmes que representam muito bem a capacidade de escolha diferente de cada cineasta em fazer uma crítica social. Se em "Infiltrado na Klan" temos um Spike Lee afiado na sátira e no impacto, "Green Book" se apresenta como um filme até mesmo familiar, pautado muito mais nas entrelinhas, do que no alarde. O filme se passa no início dos anos 1960 e acompanha o Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista negro de renome que decide fazer uma turnê pelo sul dos Estados Unidos - região historicamente racista, devido ao seu passado escravocrata. Sabendo disso, o músico contrata Tony (Viggo Mortensen), um descendente de italiano do Bronx acostumado a resolver confusões de boates, para ser seu motorista particular, assim como uma espécie de "guarda-costas".

Primeiramente, é válido destacar a inversão de papeis que o roteiro traz instantaneamente. Como o longa se passa no auge da segregação estadunidense, ver um branco sendo motorista de um negro já quebra muitos padrões da época. E o filme não faz questão de enfatizar isso: muito pelo contrário. Ao tratar isso com naturalidade, o roteiro dá ao filme um tom de leveza que vai acompanhar o resto da metragem. Aliás, isso faz parte da composição diferenciada que o "script" traz para essa história. Embora apresente um tom leve (e muitas vezes cômico), o filme não se omite na exposição dos absurdos provenientes de tamanha segregação. Muitas vezes essa quebra de tom é tão abrupta que deixa o espectador em choque, o que é extremamente válido e retrata fielmente as incertezas e a insegurança de um indivíduo em um ambiente hostil a ele. Todavia, mesmo com essa constante variação de tom, o filme, principalmente através da montagem, consegue conceber um ritmo fluido e agradável. Assistir "Green Book" é uma experiência muito palatável, e as horas passadas dentro da sala de cinema não pesam em momento algum. Nesse sentido, o filme se assemelha muito com obras como "Histórias Cruzadas" e "Estrelas Além do Tempo", que apostam numa abordagem mais leve, mas não menos crítica, do que filmes como os de Spike Lee, por exemplo. Não é de se assustar que Octavia Spencer esteja na produção desse filme, tendo em vista a filmografia da atriz/produtora.

Mesmo assim, a fluidez rítmica e o tom agradável do filme de nada adiantariam se a dupla de protagonistas não funcionasse em conjunto. "Green Book" é um daqueles filmes extremamente dependentes da capacidade de composição de personagem de cada ator e, se a química entre os dois não funcionasse, o filme seria um fiasco. Felizmente, nesse sentido, a escolha dos atores foi bem feita, trazendo uma das melhores duplas do cinema de 2018. Viggo Mortensen, que acabou de fazer "Capitão Fantástico" e sempre será o "Aragorn" de "O Senhor dos Anéis", mostra uma versatilidade incrível ao interpretar um italiano passional e estourado, remetendo-nos a clássicos personagens de Coppola e Sorsese. A jornada pela qual Tony passa durante o filme é um dos pilares da crítica presente na obra, e o alicerce da abordagem diferenciada. Tony passa de um racista que não é capaz nem de usar o mesmo prato que um negro comeu para ser um grande amigo de um negro. A jornada de Tony é muito mais de redenção do que qualquer outra coisa e, apesar de parecer apelativa devido a algumas situações que parecem convenções de roteiro, funciona muito bem. "Green Book" parece querer transmitir a mensagem de que, antes de mudar o mundo inteiro, nós precisamos mudar as pessoas. E essas pessoas irão mudar o mundo. Mesmo que pareça piegas e forçada, o filme consegue carregar essa mensagem com tanto amor e envolvimento, que o público compra a ideia. Ao lado de Viggo, Mahershala Ali também provê uma atuação espetacular, e que requer mais curvas dramáticas do que a de seu companheiro. Sempre formal e elegante, seu personagem inspira um tom de superioridade inato e, a princípio, parece até conter um certo tom de arrogância. Contudo, Ali é eficiente ao desconstruir seu personagem ao longo da metragem, dando espaço às fragilidades internas de Don, ao mesmo tempo que exibe sua coragem em ser quem é. E existe uma cena em que Don explica para Tony como ele se sente sozinho no mundo que é simplesmente tocante e memorável. Mahershala Ali é uma grata surpresa recente e não seria absurdo pensarmos no segundo Oscar da carreira do ator.

Por fim, a direção de Peter Farrelly ("Debi & Lóide") é competente ao aliar os demais quesitos cinematográficos em uma película sincera. Seus movimentos de câmera não são inventivos, mas os enquadramentos são bem feitos e suas decisões contribuem para o desenrolar da história. Muitas vezes uma direção simples é muito mais eficiente para um ritmo fluido do que exageros egocêntricos de um diretor. Nesse sentido, Farrelly abre espaço para a história caminhar por si só, e consegue fazer uma eficiente direção de atores. "Green Book" é um filme que pode cair no esquecimento pela sua falta de impacto imediato, porém trata-se de algo muito agradável de se ver. O figurino, o design de produção e a ambientação dão ao longa uma espécie de charme vintage dos anos 60 que dialoga com o tom esperançoso que o filme inspira. Mesmo que fosse uma época dura, cheia de tragédias e injustiças, também foi uma época de família, de amores, de amizade e de transformação. "Green Book" aposta na abordagem do tema da segregação racial por meio de tom leve, obtendo êxito devido à perfeita química entre os personagens e ao competente trabalho de atuação de Ali e Mortensen.

Nota: 

- João Hippert

sábado, 19 de janeiro de 2019

Crítica de "Vidro"

M. Night Shyamalan é uma das personalidades mais controversas do mundo do cinema. Responsável por excelentes obras como "O Sexto Sentido", o diretor passou por um momento artístico conturbado quando parecia querer se adaptar a um mercado estabelecido. A partir daí, Shyamalan ficou refém de uma fórmula batida em Hollywood e passou a ser estigmatizado como "o caro dos plot-twists". Contudo, em 2015, o diretor realizou a grata surpresa "Fragmentado": um filme cheio de energia, bem filmado e com atuações incríveis, principalmente do protagonista James McAvoy. Porém, o que pegou todo mundo de surpresa, de fato, foi o final do longa, quando descobrimos que trata-se de uma continuação do filme "Corpo Fechado", de 2000, que é outra boa realização do diretor. Eis que chegamos em 2019 com "Vidro": um filme que tem a pretensão de finalizar a "trilogia dos super-heróis" de Shyamalan. Aqui temos David Dunn (Bruce Willis), Kevin (James McAvoy) e Elijah Price (Samuel L. Jackson) sendo retidos num hospital psiquiátrico comandado pela Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson) que tenta os convencer de um transtorno psicológico que os fazem acreditar terem poderes especiais. Entretanto, como é a marca do diretor, a trama toma rumos inesperados durante a metragem, trazendo tensão e agilidade ao longa.

O roteiro, escrito por M. Night Shyamalan, tem grandes méritos. Primeiramente, é válido ressaltar a qualidade do longa enquanto encerramento de trilogia. Vê-se que, realmente, "Vidro" foi um projeto pensado juntamente com "Fragmentado", o que deixa as bases para o roteiro muito mais sólidas. Shyamalan, desde o início, se preocupa com a mensagem que quer passar com o longa, portanto sabe onde deve chegar no final. Nesse sentido, "Vidro" é muito sobre a discussão acerca do que é ser um herói, qual impacto isso teria na sociedade atual, o poder das mídias e do exemplo, assim como enxergar no sobrenatural uma espécie de esperança. Tudo isso é desenvolvido por meio de um texto com camadas e reviravoltas embasadas: Shyamalan utiliza aqui de um recurso clássico de sua filmografia - ele dá todas as pistas possíveis, mas ainda sim o espectador não mata a charada antes da hora. Tal trabalho engrandece a experiência cinematográfica e torna o ritmo extremamente gostoso: a duração do longa não pesa em nenhum momento, já que estamos embarcados na história. Isso também deve ao excelente desenvolvimento dos personagens, que carregam a história consigo. David Dunn exprime a figura de um herói cansado, que acredita estar fazendo o bem, mas muitas vezes busca um sentido maior nisso tudo. David sofre de um transtorno de identidade que o faz ter inúmeras personalidades, deixando-o numa eterna luta interna que é estimulada pelo ambiente externo. E Elijah Price é simplesmente o melhor personagem do longa: cínico, divertido, mas com um propósito bem claro. Talvez o grande problema em relação aos personagens, seja a Dra. Ellie Staple que diminui a qualidade do filme como um tudo. Apesar de Sarah Paulson ser um atriz excepcional, aqui vemos um texto raso, motivações confusas, que não conseguem tirar a personagem da superficialidade. Como ela é um ponto de equilíbrio do filme, essa falta de desenvolvimento prejudica o andamento da história, dando espaços para diversas convenções de roteiro.

Por outro lado, a direção de M. Night Shyamalan é um ponto difícil de ser criticado, principalmente, por sua inventividade com a câmera. Em nenhum momento o diretor usa do plano mais óbvio, o que deixa a composição visual das cenas muito mais interessante. Shyamalan utiliza muito do recurso da câmera subjetiva para trazer o espectador para a pele do personagem, o que funciona muito bem. Além disso, a movimentação fluida da câmera e a escolha por planos simétricos em grande parte das cenas dão ao filme uma limpeza visual que dialoga com o propósito do filme. "Vidro" é sobre homens com capacidades incríveis, mas que estão limitados a um mundo cotidiano. Por isso, a paleta de cores também é de cor fria, e busca se ater a uma verossimilhança desejada. Outra qualidade de Shyamalan, é a própria direção de atores, já que eles entregam uma enormidade variação de emoções e, até mesmo, personalidades. James McAvoy retorna ao papel de forma excelente, conseguindo fazer uma construção de personagem louvável, tendo em vista que cada personalidade de Kevin é facilmente reconhecível pelos trejeitos do ator, pelo tom de voz diferente, pelo olhar, pela postura. McAvoy exibe uma imensa curva dramática e uma impressionante capacidade de transição, assim como já havia feito em "Fragmentado". Samuel L. Jackson também brilha na encarnação do cinismo de um gênio maligno, e seu carisma dispensa comentários. Bruce Willis está bem como Bruce Willis, mas não se destaca. Ademais, vale ressaltar a eficiência da trilha sonora, que possui notas dissonantes e esporádicas que auxiliam na tensão que o filme propõe.

"Vidro", por fim, é um final digno para uma trilogia bastante coesa. Em meio a tantos filmes de super-heróis baseados em lutas contra o mal ou contra vilões megalomaníacos, "Vidro" mostra que um filme de super-herói também pode trazer discussões psicológicas, sociais e políticas importantes, além de mostrar que uma história desse tipo não precisa ser linear nem previsível. É interessante perceber o carinho de M. Night Shyamalan tem como esse universo e como representa a sua concepção acerca desse novo gênero tão aclamado. Desse modo, percebemos que o diretor, quando tem controle da sua própria criatividade, é capaz de prover películas muito bem realizadas. "Vidro" se destaca pelas atuações excepcionais, pela câmera inventiva de M. Night Shyamalan e por reviravoltas embasadas, tornando-se um final digno para a trilogia.

Nota: 

- João Hippert

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Crítica de "Homem-Aranha no Aranhaverso"

O cinema de super-herói, principalmente nos últimos 10 anos, tornou-se um mercado. E, como todo mercado, temos uma espécie de padronização de produtos, isto é, os filmes parecem seguir uma mesma "fórmula de sucesso", o que gera muito polêmica. Se por um lado temos uma certa garantia de qualidade, principalmente no quesito de produção, por outro temos a crescente falta de interesse do público de "ver mais do mesmo". É por isso que Marvel e DC estão nesse embate uma com a outra, buscando sempre películas que deem frescor ao gênero e as impeçam de cair nesse ponto prejudicial da padronização. E é nesse sentido que uma solução disruptiva no mercado cinematográfico tende a calhar muito bem e a instaurar uma possível nova ordem no que diz respeito aos super-heróis. Eis que temos "Homem-Aranha no Aranhaverso": um filme que chega sem muito alarde e conhecimento do grande público para transformar de vez a visão que temos sobre um filme baseado em quadrinhos. Primeiramente, é válido ressaltar que trata-se de uma animação da Sony, baseada no universo do Homem-Aranha. Porém, ao invés de acompanharmos Peter Parker, a história segue um garoto do Brooklyn, Miles Morales, que, após ser picado por uma aranha radioativa, também ganha poderes especiais. Devido a certos acontecimentos, uma fenda no espaço-tempo é gerada e "homens-aranhas" de diversas realidades paralelas chegam na realidade de Miles para o ajudar a derrotar o vilão do longa: Wilson Fisk, o Rei do Crime.

Sim, a premissa parece mirabolante demais. Sim, a escala parece extremamente grandiosa para estar no cinema. E sim, uma história dessas só poderia ser concebida em uma HQ. E é exatamente esse o grande acerto e a grande qualidade do filme: "Homem-Aranha no Aranhaverso" é, essencialmente, uma história em quadrinhos. Talvez seja a realização mais bem adaptada de uma mídia para outra que vi em tempos, afinal, o filme consegue ter uma identidade visual própria, mesmo que utilize de uma linguagem tipicamente de quadrinhos. Nesse quesito, os diretores Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman acertam ao utilizar das onomatopeias, das viragens de página e, principalmente, da movimentação dos personagens com esse intuito. Esse último quesito, por exemplo, inspira no espectador uma certa estranheza inicial, pois o filme parece estar tentando uma técnica de "stop motion", mas que não se dá efetivamente. Com o tempo e a imersão promovida também pelo roteiro, o público não repara mais esse tipo de coisa, assim como acontece nos quadrinhos. Quando a história é boa, esquecemos que estamos lendo uma história dividida em pequenos quadros de um papel e embarcamos naquele universo. Além disso, a direção, juntamente com a equipe de animadores, é competente em compor um visual literalmente fantástico, repleto de cores vibrantes, expressões faciais detalhadas, e uma identidade visual muito própria. O filme estabelece algo tão único que o público, a partir de agora, seria capaz de identificar uma cena de algum filme que pertencesse a tal universo somente pela imagem, o que é muito bom, tendo em vista que o cinema é uma arte audiovisual.

No quesito de roteiro, o longa apresenta um desenvolvimento de personagens excelente, com o destaque para a jornada de herói de Miles, mas também para as motivações do Rei do Crime. No que tange o protagonista, Miles segue a clássica jornada do herói de autoconhecimento, de incerteza sobre os seus poderes, de fuga ao que ele está destinado a fazer e, finalmente, a aceitação. Porém, toda essa jornada também é pautada nos laços familiares do garoto, principalmente com seu pai protetor e com o tio que é uma espécie de inspiração. O roteiro, porém, foge de maniqueísmos e consegue tratar da relação de Miles com os dois, sem diminuir nenhum lado; muito pelo contrário. O filme nos mostra as diversas faces dessa relação familiar e, a partir da metade da metragem, passa a focar em uma mensagem deveras impactante. É muito bonito ver isso em um filme do Homem-Aranha devido ao que ele representa e, por isso, torna-se impossível não lembrar de Stan Lee. O gênio criador do herói, que nos deixou recentemente, sempre nos remete à frase clássica: "Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades". Por isso, é interessante notar como a descoberta de Miles enquanto herói também é sua descoberta enquanto filho e enquanto pessoa. E, para além disso, temos a questão étnico-cultural muito forte, haja vista que Miles mora no Brooklyn e tem uma realidade na sua vizinhança bem diferente da que frequenta em sua escola de Manhattan. Nesse sentido, o filme aborda a situação social de uma forma bem palatável, pois consegue alinhar essa discussão importante com o tom leve do enredo. Em tempos de tanta discriminação, filmes como esse são essenciais para valorizar as diferenças e dar visibilidade a uma população, até então, invisível. Basta pensarmos em quantos meninos dos Brooklyns do mundo vão querer se tornar o Miles Morales a partir de agora.

É por isso que "Homem-Aranha no Aranhaverso" se mostra tão completo. Mesmo que tenha um quê existencial ao lidar com questões sobre a família e crítico ao analisar as desigualdades sociais existentes em um grande centro urbano, o filme não deixa de divertir em nenhum segundo. Isso se deve ao tom lúdico provido pelo roteiro, que é muito auxiliado pelo carisma dos personagens e a interação entre eles. Além disso, as cenas de ação são bem executadas, limpas, visuais e deveras empolgantes. A trilha sonora também é muito bem escolhida e combina com o tom que o filme quer passar. Tudo parece muito assertivo e bem encaixado, o que deixa a metragem com um ritmo satisfatório. O vilão é bem escolhido e, mesmo que ele tenha relativamente pouco tempo de tela, o longa é capaz de trazer uma certa humanidade a ele. Além disso, um dos pontos altos do filme trabalha com um "e se?" recorrente entre os fãs do Aranha: "O que aconteceria com o Peter Parker depois de 20 anos combatendo o crime?". Sutilezas de roteiro como esta demonstram o cuidado que esse filme transparece. Mesmo que aposte no tom lúdico inerente das histórias em quadrinho, "Homem-Aranha no Aranhaverso" aborda questões existenciais sobre relações familiares e exibe, com técnica e visual arrebatadores, a necessidade da representatividade étnica, por meio de um protagonista totalmente carismático e de uma experiência imersiva.

Nota: 


- João Hippert



domingo, 23 de dezembro de 2018

Top 10: Filmes 2018

Mais um ano chega ao fim e, com isso, as reflexões acerca do que o cinema trouxe de melhor aos espectadores brasileiros no ano de 2018. Como de costume, é válido ressaltar que estão restritos, aqui, os filmes que tiveram seu lançamento comercial nos cinemas brasileiros (ou em serviços de streaming) em 2018, portanto algumas obras têm data de produção de 2017. Antes de começar a lista dos meus 10 prediletos do ano, algumas menções honrosas devem ser feitas. Iniciando pelos longas da temporada de premiação do Oscar, Três Anúncios para um Crime, Eu, Tonya, Projeto Flórida e Me Chame Pelo Seu Nome merecem destaque. 2018 também foi um ano de muita relevância para o já consagrado diretor Steven Spielberg, que apresentou o relevante drama histórico The Post, ao mesmo tempo que voltou à sua melhor forma aventureira em Jogador N° 1. No que tange os grandes blockbusters, Jurassic World: Reino Ameaçado e Missão Impossível: Efeito Fallout mostraram-se diversões válidas. Como animação, o destaque é o retorno contundente da família Pereira em Os Incríveis 2. Já na parte da comédia, o destaque fica com a excelente sátira histórica A Morte de Stalin - filme inteligente, ágil e engraçado. O início do ano também contou com a excelente surpresa Um Lugar Silencioso, capaz de criar um ambiente de tensão fora do comum. Também é válido destacar a cinebiografia do Queen no filme Bohemian Rhapsody que, apesar de suas falhas em relação à veracidade dos fatos, é bem construído e tem energia. A Disney também merece a menção de O Retorno de Mary Poppins, capaz de resgatar a magia do filme original por meio de design de produção impecável e visual arrebatador. No que tange os grandes diretores da atualidade, Wes Anderson merece destaque pelo divertido e crítico Ilha dos Cachorros, enquanto os Irmãos Coen, em parceria com a Netflix, realizam o contundente projeto The Ballad of Buster Scruggs - um faroeste que homenageia os clássicos por meio de roteiro apurado, trazendo, também, frescor ao gênero. Por fim, as menções honrosas remanescentes ficam com os filmes de herói Pantera Negra - talvez o mais importante em termos sociais, históricos e étnicos para a Marvel e Aquaman, um filme de diversão despretensiosa que pode dar bom tom à continuidade da DC nos cinemas. Eis os 10 melhores:


  • Roma  Cuarón compreende isso à medida que dá tom leve à direção e assina um roteiro repleto de sensibilidade. Não é a toa que "Roma" é um anagrama perfeito de "Amor", pois as memórias afetivas, mesmo que estejam em preto e branco, têm um pedaço muito especial no nosso coração.
  • Nasce uma Estrela Em um momento de tanto desespero ao redor do mundo, Gaga e Cooper nos relembram que o amor é necessário, e que a arte existe justamente para cumprir esse vazio que existe - e sempre existirá - em nós. "A Star is Born" parece abraçar a falibilidade humana, mas sem julgamentos, resultando em uma emocionante (e necessária) história de amor.
  • Viva: A Vida é uma Festa - O novo filme da Pixar demonstra-se deveras importante ao abordar a necessidade do cuidado com a família e, acima de tudo, ao valorizar a cultura mexicana em tempos tão conturbados para os estadunidenses, por meio de um roteiro perfeito, um visual arrebatador e um grande apreço quase metalinguístico pela importância da música no cotidiano das pessoas. 
  • Vingadores: Guerra Infinita - "Vingadores: Guerra Infinita" é um verdadeiro quebrador de paradigmas dentro do Universo Cinematográfico da Marvel, construindo um senso de preocupação e urgência - nunca antes visto - em aliança a um imenso carinho com os personagens já consagrados no cinema, além do desenvolvimento perfeito de um vilão dúbio, provocativo e seguro de si.
  • Infiltrado na Klan - Spike Lee é responsável por aliar comédia e relevância história, nesse filme composto por ritmo perfeito, atuações incríveis e uma mensagem deveras impactante, capaz de permanecer na memória por um bom tempo.
  • Hereditário - Partindo muito mais para a linha do terror sugestivo, "Hereditário" é capaz de assustar ao mesmo tempo que apresenta uma estrutura narrativa irretocável, contando com roteiro e atuações fantásticas., além de um impacto visual muito forte.
  • Trama Fantasma - O roteiro repleto de sub-textos antropológicos em aliança com um ator de alto nível em seu auge resulta em uma realização cinematográfica completamente satisfatória - e surpreendente.
  • O Processo - Relevante politicamente, "O Processo" é a obra nacional de maior destaque do ano, conseguindo dar fluidez e objetividade a fatos confusos e demorados, por meio de montagem precisa e da sinceridade comovente de Maria Augusta Ramos.
  • Lady Bird: A Hora de Voar -  "Lady Bird" trata de uma belíssima jornada de autoconhecimento e maturidade, caracterizando-se como uma crônica sobre a passagem do tempo e sobre a validade das instituições sociais, principalmente a familiar, através de um roteiro belíssimo e de uma direção completamente fluida de Greta Gerwig.
  • Bird Box -  Usando do gênero pós apocalíptico como um subterfúgio para a reflexão filosófica acerca da maternidade, "Bird Box" é tenso, ágil e impactante, contando com uma atuação primorosa de Sandra Bullock.
- João Hippert



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Crítica de "Roma"

Alfonso Cuarón. Você provavelmente já ouviu esse nome, afinal Cuarón é responsável por grandes obras hollywoodianas. "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban", "Filhos da Esperança", "Gravidade" são alguns dos títulos cuja responsabilidade é do diretor, portanto sua qualidade é inegável. Mas, todos esses diretores que não são estadunidenses, acabam sendo refém dos estúdios na elaboração dos filmes. Não que isso seja ruim, afinal um bom diretor sabe trabalhar com o que tem, mas talvez não seja o desejo artístico total daquele idealizador. É por isso que, de tempos em tempos, nos deparamos com os jargões "o filme da vida do diretor x" ou "o diretor x nunca mais vai ser o mesmo depois desse filme". Bom, para falar a verdade, é exatamente essa a sensação que esse filme passa. Planejado desde 2006, "Roma" conta a história de uma família no México da década de 1970, apresentando seu cotidiano, seus desafios, contando com um quê biográfico, segundo o próprio diretor. O filme acompanha a empregada doméstica Cleo (Yalitza Aparicio), que desenvolve uma relação de afeto muito grande com os filhos dos patrões, o que remete a uma antiga cuidadora do próprio Cuarón.

Tendo em vista esse contexto biográfico, o filme se baseia em memórias: devaneios de um tempo perdido, em que as lembranças sobrepujadas se confundem em meio a tanta afetividade. Nesse sentido, o roteiro de Cuarón foca muito mais na relação entre os personagens, no retrato cotidiano daquela família, do que em uma narrativa muito elaborada. Ora, é como se o espectador estivesse ouvindo o próprio diretor contar a história de sua infância, por meio de um roteiro extremamente introspectivo. Aqui, Cuarón exibe um imenso cuidado em conferir sensibilidade às situações: a emoção é genuína justamente por ser real. Tudo em "Roma" é muito sincero e bonito, na acepção mais pura da palavra. E é impossível negar o quanto essa história tem uma relação especial com o povo latino-americano, devido aos costumes parecidos e o passado recente em comum. Tomadas as devidas proporções, "Roma" lembra muito o excelente filme brasileiro "Que Horas ela Volta?", mas é interessante notar como cada filme foca na cultura que quer apresentar, e tudo isso com um esmero elevadíssimo. Ademais, vale ressaltar o arco da protagonista Cléo, que, apesar de ter uma estrutura simples, apresenta complexidade justamente na construção da personagem: sensível, humilde e refém de um sistema que talvez nem ela é capaz de enxergar. Cléo é uma daquelas babás que se relacionam mais com os filhos dos patrões do que a própria mãe deles. E, mesmo que cuidar das crianças faça parte do trabalho da moça, é tocante ver o carinho e a dedicação de Cleo, o que realça ainda mais o tom nostálgico que o diretor parece querer conferir ao longa.

Nesse ínterim, a direção de Cuarón apresenta sua nostalgia através de uma fotografia em preto e branco esplendorosa (Cuarón também é o diretor de fotografia do filme). É interessante notar o contraste que a narrativa apresenta em relação ao visual, já que a fotografia em preto e branco expressa um dos momentos mais coloridos da vida de uma pessoa: a infância. Mesmo assim, o uso de tal fotografia acrescenta um tom "retrô" especial ao filme e, mais uma vez, reflete o quesito das memórias. "Roma" é um filme sobre memórias, sobre o passado, e a utilização do preto e branco realça esse propósito. Por outro lado, a câmera de Cuarón é bastante comedida. Não vemos aqui nenhuma movimentação energética (como vimos em "Gravidade", por exemplo), mas sim uma câmera que dá cadência ao andamento do longa. Cuarón parece focar na construção de um ambiente imersivo, através de tomadas lentas e contemplativas. Ao mesmo tempo que a fotografia auxilia nessa composição visual fantástica, a inserção de pequenos objetos inerentes à cultura mexicana realçam o realismo daquela casa. Nesse sentido, "Roma" se apresenta como um verdadeiro desfile de quadros em preto e branco, repleto de inspiração, sensibilidade e nostalgia. Como pode-se perceber, no entanto, trata-se de um filme com um público seleto. É muito mais sobre contemplação do que desenvolvimento de história, o que pode trazer enfado ao espectador mais desavisado. Porém, para aqueles fãs de um cinema original e honesto, a obra é imperdível.

E quando eu disse que "Roma" é o filme da vida de Cuarón, basta vermos o trabalho que ele teve para concebê-lo. Além de diretor, roteirista e diretor de fotografia, o mexicano também participou da edição do longa. É perceptível a alma que Cuarón emprega nessa idealização, juntamente com a coragem de voltar às raízes, principalmente em tempos tão conturbadas. Apesar de não ser um filme de caráter político, é relevante percebermos que "Roma" é um filme de um diretor mexicano nos EUA sobre uma época em que a ditadura militar comandava o México - e a sequência em que somos apresentados àquele ambiente hostil é arrebatadora. Mesmo assim, Cuarón não se prende a um possível maniqueísmo pedante para fazer uma crítica muito mais sutil e impactante. Aqui vemos um México repleto de desgiualdade social, pobreza, violência. Mas também um país de festas, de esperança e de afeto. Cuarón compreende isso à medida que dá tom leve à direção e assina um roteiro repleto de sensibilidade. Não é a toa que "Roma" é um anagrama perfeito de "Amor", pois as memórias afetivas, mesmo que estejam em preto e branco, têm um pedaço muito especial no nosso coração.

Nota: 

- João Hippert

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Crítica de "Bird Box"

O mercado cinematográfico está mudando. Inicialmente surgindo como uma espécie de "locadora virtual", a Netflix, com o passar dos anos, parece ter entendido a nova dinâmica que o mercado propõe. Não vale mais tanto a pena apenas reproduzir conteúdos de outros estúdios, mas investir em produções originais. Com essa mudança de paradigma, vê-se a emergência de um novo conflito: filmes feitos para o cinema x filmes feitos para o streaming. Embora seja uma discussão polêmica acerca da banalização das salas de cinema, é extremamente válido ressaltar a acessibilidade que isso traz, tanto por parte do público, que tem mais acesso a diferentes obras, quanto aos criadores, que têm mais espaço para divulgar suas produções. É nesse contexto que surge "Bird Box" - o mais novo filme original da Netflix, que entra no catálogo dia 21 de Dezembro. O filme se passa em um futuro pós-apocalíptico, em que criaturas começam a instigar suicídios coletivos por meio de contato visual. Acompanhamos então a jornada de Malorie (Sandra Bullock), em sua luta pela sobrevivência, acompanhada de diferentes companheiros ao longo do caminho e tendo que proteger duas crianças.

O gênero do suspense/horror é um daqueles que foram subestimados por muito tempo e agora parece que está retomando seu prestígio merecido. Talvez a quantidade excessiva de filmes rasos sobre o gênero tenha gerado uma espécie de preconceito, principalmente por parte da crítica, o que dificulta, ainda mais, o surgimento de películas relevantes que envolvam elementos do gênero. Nos últimos anos, contudo, esse contexto parece ter mudado, tendo em vista o surgimento de diversas obras que usam do terror como plano de fundo para o desenvolvimento de uma busca por humanidade. Não é o terror só pelo terror; mas sim o terror como motor de crítica, de desenvolvimento de personagens e, até mesmo, como conceito filosófico. 2018 mesmo foi um ano muito válido para o gênero, com a presença de duas excelentes obras: "Hereditário" e "Um Lugar Silencioso". Este último tem uma semelhança inegável com "Bird Box", mas é interessante notar como uma abordagem diferente é capaz de distanciá-los tanto. Conceitualmente os filmes se parecem, pois tratam de uma vida pós-apocalíptica em meio ao silêncio ("Um Lugar Silencioso") ou em meio à falta de visão ("Bird Box"). Porém, enquanto um desenvolve a família, o outro desenvolve a maternidade. E é por isso que não pensaria em ninguém melhor que Sandra Bullock para desempenhar esse papel.

Sandra Bullock merece todo o reconhecimento pela entrega emocional - e física - que realiza aqui. Tendo em vista essa versatilidade exigida pelo filme, lembramos de sua atuação memorável em "Gravidade", mas aqui Bullock parece ainda mais segura e apegada ao papel. "Bird Box" é um daqueles filmes que depende crucialmente de uma protagonista envolvida com a história e capaz de desenvolver o arco de sua personagem de forma crível e empática. Bullock faz isso, ao conseguir demonstrar as fragilidades de Malorie, ao mesmo tempo que nunca deixa de transparecer uma força inabalável. Ao início da projeção, percebemos que Malorie é uma mulher amargurada e que, apesar de grávida, não consegue criar laços afetivos muito fortes, tampouco com seu bebê. O único contraponto a essa indiferença de Malorie é sua irmã Jessica (Sarah Paulson), que parece trazer vivacidade à personagem e a interação entre as duas é tão fluida que o público parece imergir naquela relação. Com os acontecimentos que o filme propõe, entretanto, Malorie passa por essa jornada de desenvolver relações afetivas em meio ao caos, sendo todo seu caminho uma grande jornada para o próprio processo de entendimento do que é a maternidade - mesmo que não seja uma definição fechada. É por isso que "Bird Box" torna-se tão reflexivo e impactante: ele faz aquilo que o gênero oferece de mais genial. Existe o desenvolvimento de um conceito interessante e original, mas a história dos personagens se sobressai em meio a um universo que é um cenário para todo aquele desenvolvimento.

O roteiro, escrito por Erick Heisserer ("A Chegada") e adaptado de um livro, tem uma estrutura linear, mas nunca previsível. Apesar de dividir a história em duas linhas temporais distintas, sendo que uma é a consequência da outra, o espectador não se vê decepcionado por saber o que esperar da parte final. Muito pelo contrário. O esmero de Heisserer aqui é focar na jornada e não no resultado final. Nesse sentido, o "storytelling" de "Bird Box" lembra muito o auge da série "The Walking Dead", em que o cenário pós-apocalíptico promove discussões morais pertinentes e introduz desafios extremamente visuais aos personagens. Por exemplo, a sequência em que os personagens precisam ir no mercado para pegar provisões, mas não podem enxergar é deveras tensa, além de desenvolver muito bem o conceito daquele universo. Além do conceito em si, os personagens apresentam profundidade e não caem no maniqueísmo de herói e vilão. Vale destacar a presença de Trevante Rhodes ("Moonlight") e John Malkovich que, juntamente com Sarah Paulson, formam um dos melhores elencos de coadjuvantes do ano. Ademais, a direção de Susanne Bier é digna de aplausos por potencializar todas as emoções propostas pelo roteiro e encenadas pelos atores. "Bird Box" é uma experiência intensa à medida que a tensão é grande, assim como o medo, a empatia, a angústia e a emoção. Não é um filme que passa batido; ele chega e impacta de uma forma muito grande. Usando do gênero pós apocalíptico como um subterfúgio para a reflexão filosófica acerca da maternidade, "Bird Box" é tenso, ágil e impactante, contando com uma atuação primorosa de Sandra Bullock.

Nota: 

- João Hippert